Enquanto os três me observam | Cartas para Maria

Hoje é meu aniversário… mais um ano e tenho de confessar, nunca gostei de comemorações. Nesta data, final de ciclo, sempre preferi ficar mais recluso, refletindo sobre o ano que passou. Já cheguei a desligar o celular para não ser encontrado e, no último ano, faltei na comemoração surpresa que prepararam. Não era tão surpresa assim, mas descobri e não fui.

Até a data, tento ficar feliz, mas, quando chega o dia, a melancolia se instala. Está bem, vou cuidar disso na próxima sessão de terapia. Quando estava sozinho, não aproveitar esse momento era um hábito fácil de se cultivar, mas, quando você se casa com uma pessoa que comemora qualquer coisa, fica difícil ser rabugento. Ficava constrangido no início com o café da manhã na cama. O que eu tinha feito para merecer tanto carinho?

Depois, vieram as crianças e o que era melancolia foi diluindo e ficando um pouco mais colorido. Mas, ainda, sentia-me incomodado. Daí, a responsável por cultivar a alegria, a felicidade e por sempre me mostrar o lado mais colorido da vida, partiu. Eu tive de assumir esse papel, pois as crianças são parecidas com ela e a alegria, como aprendi com ela, precisa estar presente. Por isso passei a preparar as festinhas e não tive mais como fugir. E, assim, além dos bolos para os parabéns, voltei a acreditar em Papai Noel, Coelhinho da Páscoa e Fada do Dente (mesmo ela tendo me extorquido nos últimos anos).

Hoje, é meu aniversário… menos um ano de melancolia, mesmo com a dor da saudade, e tenho de confessar: este ano tive vontade de comemorar, sem exageros, nada de fogos de artifício, mas tive vontade de comemorar. Vou comemorar.. O fato de, depois de tudo que vivemos, passar a pensar na finitude, que o tempo está passando, não há mais espaço para a melancolia. Tenho as crianças, que estão ansiosas e preocupadas com a proximidade do dia, disfarçando e fazendo de conta que não sabem de nada. E tem a Mi se fazendo presente em tudo e através deles.

Hoje, vejo que passei anos preso em ideias que já não fazem mais sentido. Muitas coisas estão mudando e isso é muito bom.

Então, hoje, vou fingir dormir até mais tarde para que as crianças possam preparar o café da manhã na cama. Vou abrir o presente fazendo cara de surpresa enquanto os três me observam. Depois acho que vai ter bolo e vamos apagar as velinhas.

Hoje, é meu aniversário… e os três, realmente, me observam.

About the Author: Rafael Stein

Rafael Stein é pai da Maria Clara e do Francisco, COO da SmartMoney Ventures, investidora em startups em estágio inicial, autor do cartasparamaria.com.br no qual escreve cartas e bilhetes para que seus filhos leiam no futuro, co-fundador da Escola de Pai - espaço para a redescoberta da masculinidade e paternidade, membro do projeto Luto do Homem e voluntário na Fundação Elisabeth Kubler-Ross.

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