Hoje é meu aniversário… mais um ano.
Preciso confessar: nunca gostei de comemorações. Sempre preferi a reclusão, a reflexão silenciosa sobre o ciclo que se fecha. Já desliguei o celular para não ser encontrado e, no último ano, faltei à festa surpresa que prepararam para mim. Não era tão surpresa assim, descobri antes. e não fui.

Até a data, tento me convencer a ficar feliz. Mas, quando chega o dia, a melancolia sempre se instala. Está bem, vou levar esse tema para a terapia.

Quando estava sozinho, não aproveitar esse momento era um hábito fácil de cultivar. Mas, quando você se casa com alguém que celebra qualquer coisa, ser rabugento fica quase impossível. No começo, eu até me constrangia com o café da manhã na cama, o que eu tinha feito para merecer tanto carinho?

Depois vieram as crianças, e a melancolia foi se diluindo, ganhando cor. Mesmo assim, ainda me incomodava. Até que a responsável por cultivar a alegria, a felicidade e por me mostrar o lado mais colorido da vida partiu. A partir daí, tive de assumir esse papel. As crianças são parecidas com ela, e a alegria, como aprendi, precisa estar presente.

Passei a preparar festinhas, bolos de parabéns. Voltei a acreditar em Papai Noel, no Coelhinho da Páscoa, na Fada do Dente (mesmo ela tendo me extorquido nos últimos anos).

Hoje é meu aniversário… menos um ano de melancolia. Mesmo com a dor da saudade, tive vontade de comemorar. Não com exageros, nem fogos de artifício, mas de comemorar.

Porque, depois de tudo, percebi: o tempo está passando. A finitude bate à porta e não há mais espaço para a melancolia. Tenho as crianças, ansiosas e preocupadas com o dia, disfarçando como se não soubessem de nada. E tenho a Mi, presente em tudo, através deles.

Hoje vejo que passei anos preso a ideias que já não fazem sentido. Muita coisa está mudando, e isso é bom.

Então vou fingir dormir até mais tarde para que as crianças preparem o café da manhã na cama. Vou abrir o presente com cara de surpresa enquanto os três me observam. Depois, provavelmente, vai ter bolo. Vamos cantar parabéns e apagar as velinhas.

Hoje é meu aniversário… e os três, realmente, me observam.

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