depois que mudamos de casa, eu e as crianças, o Jorge foi morar no sítio.
lá ele teria mais liberdade, mais cuidado  e, sendo honesto, eu não tinha como dar conta de tudo sozinho: duas crianças, casa, trabalho, vida.
pensei que seria o melhor pra ele.

desde que chegou, foram 12 anos, 2 meses e 21 dias.
até esta semana, quando partiu.
não conseguimos estar com ele nos últimos dias. não houve despedida.

não ia escrever nada. afinal, pra quê?
mas o Jorge faz parte da nossa família.

ele chegou antes das crianças. era terrível e aprontava demais.
mas quando elas nasceram, cedeu espaço.
virou amigão.
deixava fazerem o que quisessem: na mão deles, foi elsa, foi jedi.

quando perdemos nosso primeiro filho, ficou a semana inteira deitado ao lado da Mi.
só saía pra comer ou passear.
quando a Maria nasceu, dormiu por muito tempo embaixo do berço, paralisado, olhando pra ela.

foi ele quem descobriu a gravidez da Maria.
e depois a do Francisco.
nas duas vezes, não largou da Micaela, deitava sobre a barriga dela como quem já sabe.

quando veio o diagnóstico de câncer, colou nela de novo.
e quando ela partiu no hospital, ele, em casa, ficou inquieto.
chegou a uivar.

o Jorge dedicou a vida inteira a nós.

não ia escrever nada. afinal, pra quê?
mas o Jorge faz parte da nossa família.

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