Não é permitido aos pais assistirem às aulas. É compreensível. No ballet, é preciso concentração e silêncio. 

Afinal, não é igual a uma aula de futebol onde os pais, à beira do campo, gritam torcendo ou orientando seus filhos: “Chuta essa bola!” “Toca, toca!” “Assim não!”

Imagine a seguinte situação… O pai, na porta da sala de aula, gritando e gesticulando: “Mão na cintura!” “Presta atenção!” “Estica a perna!” “Encolhe a barriga e encaixe o bumbum!” “Olha para a professora!” Não dá mesmo! Sendo assim, é proibido assistir à aula e, normalmente, a porta da sala é fechada logo depois de deixar a Maria Clara.

Então, geralmente, fico no salão, sentado em uma das mesas enquanto espero.

Mas… tenho que confessar que, imediatamente ao fechar a porta, me vejo espiando pela fechadura. Eu sei que não pegaria bem um pai olhando pela fechadura, eu sei. Conto com a sorte ou distração das professoras que, em algumas aulas, acabam deixando a porta aberta e torno-me um infrator. Para estes momentos venho desenvolvendo, ao longo do tempo, algumas técnicas para conseguir espionar por poucos segundos.

Após iniciar a aula, fico atento à movimentação do salão. Os intervalos entre as aulas das turmas mais avançadas são os mais favoráveis. Esses são momentos de maior aglomeração e o burburinho toma conta do ambiente. Então… me levanto, levo o telefone ao ouvido e finjo atender uma ligação. Por causa daquele barulho todo, coloco a outra mão na orelha e faço cara de quem não está ouvindo nada (é importante esta dramatização). Caminho com passos lentos em direção à sala de aula, subo as escadas, olho para o relógio que fica na parede, vejo os cartazes dos espetáculos, certifico-me de que porta está aberta, avisto o piano, continuo caminhando, saio do campo de visão do salão, respiro fundo, neste momento posso parar com a dramatização, me aproximo lentamente, começo a ver as bailarinas, vejo ela, como ela está linda, me aproximo da porta, ela faz algum passo que desconheço, depois spring pointes, galops, skips, ela percebe a minha presença e sorri, continuo na porta, digo um oi, aceno com a mão, ela se distrai e eu digo baixinho:  “Mão na cintura!” “Presta atenção!” “Estica a perna!” “Encolhe a barriga e encaixe o bumbum!” “Olha para a professora!”. Ela acena com a cabeça concordando com tudo. Deu outro giro, um passo que conheço. “Está linda.” “Papai vai ficar lá no salão! Vou tomar um café”. 

Volto caminhando até o salão, peço um café e um bolo.

Olho ao redor, bailarinas, professores e mães no burburinho.

Respiro fundo, ninguém me viu!

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About the Author: Rafael Stein

Rafael Stein é pai da Maria Clara e do Francisco, autor do cartasparamaria.com.br no qual escreve cartas e bilhetes para que seus filhos leiam no futuro, coautor do livro "Luto por perdas não legitimadas na atualidade", voluntário na Casa Paliativa, membro do projeto Luto do Homem.

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3 Comments

  1. Sandra Teixeira dezembro 19, 2019 at 4:55 pm

    Parabéns, Rafael.

    Sempre uma inspiração seus textos.

  2. Virginia dezembro 20, 2019 at 3:10 am

    Rafa, fui mãe de bailarina e me senti no túnel do tempo enquanto lia seu texto. Fico muito feliz de ver seu crescimento como pai (mãe).Lindo texto!

  3. Dri dezembro 21, 2019 at 1:56 am

    Parabéns pelo texto!!!muita sensibilidade,muito amor em tudo que escreve. Maria Clara e Francisco terão muito orgulho do pai!!!

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