Foram 3 dias intensos, emocionantes e de muita expectativa por diversos motivos. Se fosse somente a sua estreia seria suficiente, mas foi o seu primeiro espetáculo sem a mamãe. E para complicar, foi minha estreia como cabeleireiro, maquiador e em diversas outras funções, conforme o ponto de vista.

Sabendo da importância deste momento, fiz questão de levar você ao balé, participar dos ensaios, me esforçando para que tudo desse certo, para que você fosse a mais bonita, que tivesse o coque mais bonito, que se sentisse bem e pudéssemos passar por esse momento juntos da melhor maneira possível.

Passei a levar você à aula e acompanhar os ensaios e, sempre que possível, ficava te espiando pela porta. Por diversas vezes me emocionei ao ver você dançando feliz.

Mamãe sempre sonhou em ver você fazendo balé. Ela foi bailarina e a dança sempre foi sua paixão. Ela dançou a maior parte da vida, parando durante o período da faculdade e voltando depois que nos casamos para a mesma escola em que você faz balé atualmente.

Desde que você era muito pequena ela dizia que queria colocá-la no balé, esperando você crescer um pouco para não ter a chance de talvez não gostar. Ela sempre voltava da escola falando sobre suas aulas. Me recordo da felicidade dela quando a professora veio falar como você era concentrada e seguia a aula direitinho.

E como ela ficou feliz em ver você se apresentar no mesmo palco que um dia ela se apresentou.

De agora em diante você vai continuar dançando e ela, de alguma forma, vai lhe acompanhar sorrindo toda vez que você subir ao palco.

Por tudo que o balé representava para a mamãe, vivenciar esse momento com você foi muito especial.

Preparação

Não foi tão simples. Eu não precisava me preocupar com diversos aspectos que constituem a preparação de uma bailarina. O meu papel de pai se resumia em assistir e lhe entregar flores ao final (é triste admitir isso), afinal eu tinha uma bailarina para cuidar de você e te ajudar em tudo que você precisasse. Nossa realidade mudou e precisei mudar. Em sua primeira aula após retornar ao balé, me dei conta que teria que fazer um coque e esse foi só o primeiro desafio. O desespero mesmo foi quando me lembrei que você teria que ser maquiada.

No dia das fotos oficiais do espetáculo fomos até o salão que a mamãe frequentou desde os 14 anos aproximadamente. Foi neste mesmo salão que a mamãe se arrumou para o nosso casamento e ela sempre teve um carinho pelas meninas. Você já conhecia e sempre acompanhava a mamãe desde muito pequena. É um ambiente onde todos lhe conhecem. Levamos um presente para cada uma delas e aproveitei para agradecer por cuidarem da mamãe com tanto carinho. Você fez questão de assinar um por um.

Aproveitei para aprender mais sobre como fazer o coque com a Nilce e como lhe maquiar com a Sandra. Fazer o coque já era algo que me sentia confortável, mas com a maquiagem eu senti que teria problemas.

Foi divertido, emocionante e você ficou linda.

Primeiro dia – Estréia

E chegou o dia da estreia. Deixei tudo organizado, desde a sua alimentação de manhã ao acordar, almoço que teria que ser algo leve (não sei bem porque pensei nisso), o check list do figurino, ferramentas para o coque, maquiagem, seu lanche, ingressos etc…

Para não ter problemas começamos a nos arrumar muito cedo e, depois de fazer o coque, tentei te maquiar. Desisti depois que você olhou no espelho e disse: “papai, está horrível”. Já sabendo que a tarefa seria complicada, deixei a tia Gabi (a Helena veio também) de sobreaviso e foi a sua salvação, evitando que você chegasse ao teatro com aquela cara.

Mas como nem tudo são flores, a estreia não foi como você imaginou. A dança tomou um rumo não esperado .. uma das meninas da frente faltou, agravando mais a situação … e você, a única que acertou o tempo da coreografia/música (só fui entender isso depois de conversar com a sua professora), acabou ficando  diferente…

Ao término do espetáculo fui pegá-la no palco e, ao me ver, você chorou e disse que não queria mais dançar. Embora a professora tivesse explicado o que havia acontecido, ressaltando que você não havia errado naquele momento, não adiantava. E, misturando a toda a emoção da estreia, choramos juntos.

Fui deixando o teatro devagar com você e seu irmão no colo. Você não quis conversa com ninguém, escondendo seu rosto no meu pescoço repetindo que não iria dançar mais. Combinei com você que o papai não iria fazer nada que você não quisesse, iríamos para casa descansar e conversaríamos no dia seguinte. E assim fizemos.

Segundo dia – Superação

No dia seguinte acordamos e não tocamos no assunto. Tomamos nosso café e, no meio da manhã, conversamos sobre a decisão que você teria que tomar e sobre meu apoio como pai. Conversamos sobre o que aconteceu, lembrei o que a professora disse ao término do espetáculo e que não havia razão para não ir. Afinal, ao faltar, você também prejudicaria outras bailarinas, como havia acontecido no dia anterior com a falta de uma coleguinha. Você ficou de pensar e falaríamos depois.

Neste meio tempo expliquei a situação para sua professora, acreditando que você iria confirmar a presença depois que conversássemos novamente. Em meio a tanta responsabilidades, ela se prontificou de imediato em lhe receber e ajudar no que fosse preciso.

Se sua decisão fosse não ir, eu estaria ao seu lado, mas realmente achava importante você superar o que aconteceu. E para ajudar na decisão, eu ainda tinha uma carta na manga que guardei para quando não houvesse mais alternativa. Então perguntei:

__ E a Marina, o que você vai dizer para ela?

Você parou o que estava fazendo, me olhou espantada, pois deve ter se lembrado que havia convidado  Marina para lhe assistir. Aproveitei o momento de indecisão  e conversamos novamente, incluindo o fato do convite feito e que Marina estava ansiosa para assisti-la. E que depois de tanta preparação não seria justo com as demais bailarinas, com as suas professoras e, principalmente, com a Marina que estava ansiosa para vê-la dançar.

__ Mas papai, a Marina vai com a gente no carro?

__ Sim, claro. E acho que se falarmos com a Tia Elisangela, ela poderá vir mais cedo para ajudar você a se arrumar.

__ Eu vou! Eu vou!

Nunca subestime o poder de uma amizade. Nunca subestime a Marina.

Marina é daquelas crianças especiais e, se vocês conhecerem a família, fica mais fácil entender. Maria conheceu-a no primeiro dia de aula e, de cara, ficaram melhores amigas para sempre. A amizade entre Marina e Maria é pura e, uma imagem que sempre ficará na minha lembrança, é o encontro diário das duas que, ao se verem na entrada da escola, corriam e se abraçavam como se não se vissem há dias.

Deu certo! E então você decidiu ir, a Marina veio trazendo alegria e desfazendo todo e qualquer sentimento ruim em relação ao dia anterior … Acho que vou continuar guardando as cartas na manga para usar no final.

Ah, eu ia me esquecendo!  Você e as demais bailarinas se saíram muito bem. E foi lindo!

Ao término do espetáculo fui pegar você no palco e, ao me ver, você sorriu … Depois descobri que, na verdade, você estava sorrindo para a Marina e foi direto ao encontro dela, não me dando muita bola. Conversei brevemente com a sua professora e agradeci.

Deixamos o teatro desta vez cheio de sorrisos, tiramos fotos e fomos jantar para comemorar.

O difícil mesmo foi desligar você e a Marina que pareciam estar ligadas no 220v.

O papel do professor

Sobre a Ana Lucia, sua professora, é evidente que o ensino do balé exige conhecimento técnico e eu realmente acredito que a base que você está aprendendo agora é importante, caso queira seguir adiante com o balé. Mas sua professora foi além disso e eu queria deixar isso registrado para que você saiba reconhecer no futuro a importância que ela teve neste dia. Ela lhe ajudou a superar a frustração da estreia, acolhendo e dando condições para que você superasse e aprendesse muito mais do que balé.

Ela também lhe entregou uma garrafinha com uma água especial que ela trouxe de Lourdes, na França, que seria entregue para a mamãe e que agora é sua. E toda vez que você ficar triste, você deve pingar uma gota em seu coração.

Lembre-se disso e saiba reconhecer a importância e o papel do professor em sua vida.

Terceiro dia

Finalmente eu relaxei um pouco e consegui assistir com calma, atento aos detalhes do espetáculo. Desta vez consegui ingressos para a primeira fila, no gargarejo. Você me viu em determinado momento e sorriu. Eu respirei fundo, me lembrei da mamãe (não chorei desta vez como nos outros dois dias) e imaginei o que ela lhe diria. Tenho certeza que ela estaria feliz e sentiria o mesmo orgulho que eu senti por você.

É verdade que foram 3 dias intensos, cansativos e muito emocionantes.

Que bom que a mamãe um dia sonhou em ver você dançar, esperou o momento certo para fazer sua matrícula e, principalmente, pode lhe ver dançar.

Que bom que você gosta tanto do balé pois, ao dançar, você tem desenvolvido a musicalidade e um gosto apurado para música, você faz exercícios (saltar, estirar, dobrar, elevar, girar, deslizar, pular), tem desenvolvido a memória e a concentração, teve melhoras em sua noção de espaço e de localização, no equilíbrio e em reflexos. Você tem aprendido a trabalhar em grupo, com mais autoconfiança e autoestima.

Afinal, não é só balé e agora eu entendo a mamãe.

 

SOBRE O MUSICAL:

THE WIZ, O MÁGICO DE OZ
Musical adaptado pela Academia IAD – Lina Penteado se inspira na trilha sonora de clássico produzido por Quincy Jones e inova com narrativa urbana

A montagem foi inspirada em dois grandes sucessos mundiais: o primeiro foi o filme O mágico de Oz, estreado em 1938 e que revelou o talento de Judy Garland, aos 16 anos, no papel de Dorothy. A segunda inspiração veio da trilha sonora do musical de The Wiz, produzido por Quincy Jones, em 1978, com Michael Jackson interpretando o espantalho e Diana Ross como Dorothy. 

Na adaptação da IAD – Lina Penteado, o musical ganhou identidade própria: logo na abertura, bailarinos interpretam trabalhadores rurais. “A cena é uma homenagem às pessoas do campo”, diz a diretora Liliana Testa. Na sequência, a eterna canção Somewhere Over the Rainbow ocupa o palco e a história da garota levada por um ciclone para a terra mágica de Oz tem início, narrada na voz de 30 profissionais, entre eles bailarinos, cantores e atores. 

O musical The Wiz, o Mágico de Oz da IAD – Lina Penteado se passa na grande cidade, onde personagens surgem das pichações dos muros, há grafites como cenários e uma fábrica comandada pela bruxa má que chicoteia seus empregados. Dorothy, a garota que vive ao lado de sua tia na fazenda, é levada para esse lugar desconhecido, torna-se amiga do espantalho que queria um cérebro, do homem de lata que lamenta não ter um coração e do leão que gostaria de ter coragem. “Nosso musical privilegia a música e a coreografia e será cantado ao vivo por todos os personagens em cena”, diz Carla Hossri, diretora teatral e responsável pela adaptação do texto.

The Wiz, O Mágico de Oz tem a direção geral de Liliana Testa, Direção Musical de Rafael Dantas, Coreografia de Tutu Morasi e Direção Teatral e Adaptação de texto de Carla Hossri.

Fotos do espetáculo: Gustavo Olmos