Maria, Francisco,
ao imaginar os momentos que viveríamos só nós três, pensei que o mais difícil seria sua apresentação de balé.
Mas me enganei.
Foi o Natal.
Estar em família e, ao mesmo tempo, sozinho com vocês me doeu.
Questões simples ficaram complicadas.
E a vida não espera a gente se adaptar.
É como trocar o pneu com o carro em movimento.
O Natal sempre foi da mamãe.
Ela fazia questão de comemorar tudo.
Eu, ao contrário, nunca gostei muito.
Me escondia nos aniversários, fugia das festas.
Perdi o gosto por um tempo — até conhecer a mamãe.
Com ela, e depois com vocês, voltei a aceitar.
O Papai Noel reapareceu, e a casa se encheu de risadas.
Depois da partida da mamãe, tudo isso perdeu o brilho.
E voltei a me perguntar: o que é o Natal, afinal?
Não é só presente.
Não é só comida farta.
Isso é festa.
O Natal, para quem é cristão, é a celebração de um nascimento.
A vida de um homem que falou de amor, de cura, de cuidado.
Que se entregou pelos outros.
O símbolo não é o consumo, mas o amor, a ternura, o querer bem.
E, mesmo para quem não é cristão, esse é o espírito que importa:
viver com amor, ser presença, cuidar.
Estou decidido a seguir por um caminho diferente.
A vida é breve, como me ensinou a mamãe.
Precisa ter valor, sentido, significado.
Então desejo que o próximo ano seja vivido nesse espírito:
entendendo que viemos ao mundo sem nada e vamos embora sem nada,
mas podemos deixar algo bom — como a mamãe deixou.
Dar presente é bom.
Mas o melhor mesmo é ser presente.
O abraço mais quente.
O olhar que não enxerga só a si mesmo.
O Natal só faz sentido se virar ação:
ajudar, perdoar, reerguer quem caiu, devolver esperança a quem desistiu.
Fazer o bem sem perguntar por quê.
Porque, no fim, quem ajuda também é ajudado.
Que a gente viva esse espírito não só em dezembro,
mas em janeiro, fevereiro…
O ano inteiro.