Levar minha filha ao ballet, agora, faz parte da minha rotina. Mais do que uma obrigação, é o momento mais esperado da semana e que, geralmente, fico só com ela.

Maria e eu começamos a nos preparar uma hora antes, separo a roupa com cuidado e coloco sobre a cama. Observo por alguns instantes as peças e verifico se não falta mais nada. Então, organizo todas as minhas ferramentas, na sequência adequada, para fazer o coque.

Ainda não faço com naturalidade, mas já não preciso de 40 minutos, como da primeira vez. Primeiro pego a escova mais apropriada – tenho três modelos – molho, cuidadosamente, o cabelo com o borrifador e, depois, espirro “sem querer” no braço, esperando a reação da Maria Clara. Ela sorri, brincamos e vou seguindo, à risca, o passo a passo que criei. Finalizo com um laço e pergunto sempre como ficou. Ainda preciso da aprovação dela (sempre vou precisar).

Em algum momento sempre digo que também vou fazer aula e que, inclusive, já falei com a professora. Invento um nome francês de um passo novo que aprendi e faço uma demonstração que mais parece com um boneco de posto de gasolina. Pergunto se levo jeito e ela responde de forma delicada que não. Então, digo que vou ensaiar mais, durante a semana, e mudamos de assunto.

Faltou colocar a saia e ajudar, na maioria das vezes, a colocar a sapatilha.

Seguimos até a academia e ficamos no salão ao lado da cantina, aguardando o início da aula e a professora chamar pelas alunas.

Desejo uma boa aula, me despeço dela, ganho um beijo e um sorriso de “eu te amo”.

No salão de espera, fico sentado e peço um café enquanto aguardo minha bailarina. Observo o movimento e os personagens passando. Mães de todo tipo, avós que, normalmente, ficam dobrando as roupinhas e arrumando a bolsa. São raros os pais. Bailarinas pequenas e saltitantes entram pelas diversas portas; as jovens desfilam buscando postura impecável; as profissionais caminham seguras e as professoras saem e entram de uma sala para outra.

Penso no que aconteceu até chegarem ali e observo o comportamento desses grupos, imaginando “conhecê-los”… Uma história para cada um – talvez um dia eu conte. Permaneço sentado, tomo meu café, respiro, olho ao meu redor, observo, me acalmo e escrevo.

Não é só ballet.

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About the Author: Rafael Stein

Rafael Stein é pai da Maria Clara e do Francisco, autor do cartasparamaria.com.br no qual escreve cartas e bilhetes para que seus filhos leiam no futuro, coautor do livro "Luto por perdas não legitimadas na atualidade", voluntário na Casa Paliativa, membro do projeto Luto do Homem.

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