Nada me prepara para ser pai de uma menina.
Logo após o parto, saio com a Maria nos braços. No corredor, vejo meu pai. Me emociono. Lembro do sacrifício dele e da minha mãe para criar quatro filhos homens.
E sinto medo.
Minhas referências são todas masculinas.
Como vou educar uma menina?
Eu não estou pronto.
A paternidade demora para cair a ficha.
Nós, homens, não somos preparados.
Não brincamos de casinha.
Não brincamos de boneca.
De repente, eu preciso aprender tudo isso.
Brincar de casinha.
Brincar de boneca.
Ser mais sensível, dividir tarefas, olhar mais para os outros.
A Maria me obriga a mudar.
A enxergar o mundo mais cor de rosa.
A querer mais heroínas que heróis.
A desejar um futuro em que ela seja respeitada, não assediada.
Em que ganhe o mesmo que um homem.
Em que possa ser o que quiser.
O medo continua. Às vezes menor, às vezes maior.
Mas a disposição de mudar se renova a cada “bom dia, papai” da Maria.
Sou homem que brinca com boneca.
E é isso que me torna pai.