Dia das mães

Na primeira noite, após a partida da Micaela, levei meus dois filhos para dormirem na minha cama, deitei no meio, com um de cada lado. Pela primeira vez me vi sozinho com eles.

Desde então, estou imerso na rotina e no dever de cuidar. “Eu preciso estar ao lado deles. Eu preciso dar força. Eu preciso cuidar dos meus filhos. São eles que estão tristes e perdidos. Foram eles que perderam a mãe”. Venho insistindo em assumir os papéis de pai e mãe tentando ser o alicerce perdido e a sustentação do cuidado.

É verdade que tenho recebido muita ajuda. Velhos e novos amigos, alguns anjos da guarda, mas uma ajuda, em especial, reforçou a certeza de que não estou sozinho: a presença da minha mãe.

Sem eu pedir, ela estava aqui e voltou a cuidar de mim. Com todo cuidado e, respeitando meu papel de pai (mesmo sem saber o que eu estava fazendo), segurou em minha mão para que eu aprendesse a andar novamente, assim como fez quando eu era criança. Saí cedo de casa, aos 16 anos, nem sempre estive ao lado da minha mãe para comemorar este dia. Não me recordo o último dia das Mães que passamos juntos. Na grande maioria das vezes, eu a cumprimentava de longe.

Minha mãe cuidou não só de mim, mas de quatro filhos, nos deu atenção, amor, nos deu a vida dela, a sua juventude e sonhos e, ainda, está dando.

Mãe, desculpe-me, nesse dia, também não estive com você.

Agora, foi a Micaela, que eu ajudei a ser mãe, que tive de cumprimentar de longe.

Por isso quis cuidar bem das crianças. Decidi que o dia seria diferente, mas elas não estariam expostas às festividades que pudessem sensibilizar demais.

Tivemos café da manhã na cama, almoço especial com a ajuda das crianças e passamos o dia juntos. Nós quatro.

Constatei que nunca serei “pãe”! As diferenças no exercício da paternidade e maternidade precisam ser ouvidas, reconhecidas e respeitadas. Ela estava e não estava ali.

Não vou conseguir substituir a Micaela na vida dos meus filhos. Mas posso ser o melhor pai que eu posso ser. O pai que, infelizmente, nunca seria se a mãe dos meus filhos estivesse aqui.

Farei o que posso com o que é importante.

Neste dia das Mães eu decidi ser Pai.

About the Author: Rafael Stein

Rafael Stein é pai da Maria Clara e do Francisco, COO da SmartMoney Ventures, investidora em startups em estágio inicial, autor do cartasparamaria.com.br no qual escreve cartas e bilhetes para que seus filhos leiam no futuro, membro do projeto Luto do Homem e voluntário na Fundação Elisabeth Kubler-Ross.

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3 Comments

  1. Heloisa julho 7, 2019 at 2:00 pm - Reply

    Rafael
    Eu sempre acompanhei online você, Micaela e Jorge… depois veio a Maria e depois o Francisco… sempre enviei likes e de longe, admirei você e Micaela juntos nos momentos mais felizes e nos mais tristes… você é um pãe sim! Admiro muito seu papel de marido e pai… me emocionei com o texto pela presença tão importante da sua mãe. Um grande beijo para vocês 4 e um grande no Jorge!
    Helô

  2. Elaine julho 7, 2019 at 10:32 pm - Reply

    Estas cartas certamente ajudarão seus filhos a entenderem e conhecerem o pai! Para órfãos, assim como eu (só que de pai), fica um vazio do desconhecido, do que sempre te contaram…e do que vc não lembra ter vivido. Por isto, estas cartas os ajudarão a preencher este vazio! Que lindo o seu posicionamento e sua dedicação , diante desta realidade! E sua mãe, que incrível mae! Linda só de se ouvir falar!

  3. Paula julho 15, 2019 at 3:30 am - Reply

    Que lindo o reencontro com sua mãe!
    Chorei!
    Agora q fui mãe, tb me reencontrei com a minha, e vi q mães sempre estão a posto p nós, assim como sempre estarei p minha filha.
    Que a sua doação aos seus filhos seja sempre assim, honesta, inteira, a sua!

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